quarta-feira, 9 de fevereiro de 2022

O Amanhecer na Chácara Aza Branca


Por Airton Braga Braúna

Despertei, e abrindo a janela do meu quarto, respirei a primeira aragem de um dia que iniciava o alvorecer. Compassadamente, o velho carrilhão, relíquia preciosa dos meus antepassados, com cinco suaves badaladas, anunciou que eram cinco horas da manhã e que um novo dia também despertava.

Dirigi-me ao varandão da residência e deitado na preguiçosa, naquele recinto, sossegadamente, em plena meditação, pude observar e admirar o romper da aurora, que em termos sertanejos, diz-se também o quebrar da barra, acompanhado de um majestoso arrebol. Admirei, absorto, um verdadeiro espetáculo da natureza, pois o céu se apresentava num colorido róseo, com lampejos de cores diversificadas, prenunciando o raiar de um novo dia, ocasião em que o sol, na sua imensurável incandescência anunciava que em breves instantes também iria descerrar a janela dos horizontes, para derramar sobre a terra a claridade ofuscante dos seus raios. A passarada em bando revoava instintivamente, formando um clássico balé, chilreando freneticamente, saldando a volta do ASTRO REI.

Ouvi atentamente o canto de alguns pássaros como o bem-te-vi, o sabiá, a juriti, a fogo pagô, o gavião, a coruja que ainda no lusco-fusco encerrava mais uma noitada de caçada bem sucedida, os colibris já degustando o néctar das flores do jardim e tantos outros que ali fazem os seus ninhais na certeza da invulnerabilidade dos seus lares e que acordavam alegremente, despertando para um novo porvir.

Deitada ao meu lado, aposta como uma sentinela estava a Nicole, minha leal e fiel cadela de estimação, atenta, aguardando o chamado para a nossa costumeira caminhada pela chácara, dando-me segurança e demonstrando estar sempre pronta para uma defesa, se necessário fosse. Posto este, anteriormente ocupado pelos meus dois não menos queridos amigos, o cão Farouk e a cadela Sherly, os quais por determinação do destino já não estão mais entre nós. Que falta me faz. Que saudades.

As aves domésticas, como de costume, com apetite aguçado e voraz, já se posicionavam para a primeira refeição do dia. O vento uivava abundantemente, provocando o balouçar dos galhos das árvores frutíferas, principalmente do coqueiral da propriedade, momento de admiração e satisfação ao ouvir o farfalhar de suas folhas.

Por ser um sertanejo nato e que me traz muito orgulho das minhas raízes, admirador de tudo que se relaciona com a natureza, relembrei a minha inesquecível e bela infância de menino vivida no interior e que os anos não trazem mais.

Presenciei neste instante, um místico conjunto de inefáveis encantos, em estado de nirvana, como que anestesiado, admirando as grossas pinceladas de matizes e cores deixadas no firmamento, traçadas pela mão da natureza.

Foi sem dúvida alguma um dos momentos mais majestosos e inesquecíveis vividos na chácara Aza Branca, nos meus abundantes anos.

Homenagem póstuma aos meus inesquecíveis pais Adauto e Tonica, que me ensinaram na vida, o respeito, a dignidade e a honestidade, herança que deixo, juntamente com a minha esposa, para os nossos também homenageados filhos, netos e bisnetos, qualidades e virtudes tão imprescindíveis na vida de cada um de nós e que hoje, infelizmente, estão em extinção. O honesto é discriminado e tachado como um bobo, entretanto rogo a DEUS que este panorama ainda mude. Tenho esperança que os homens acordem para esta realidade e que os meus descendentes não se sintam envergonhados de serem honestos, como já previa há muito tempo, o incomparável poeta Ruy Barbosa.

(O Capitão Airton Braúna escreveu esse texto em Fevereiro de 2010 como uma homenagem aos seus ascendentes e descendentes para que fosse lido em sua cerimônia de despedida para o descanso eterno. Desejo atendido por seus familiares no último dia 03/02/2022).


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